
Eram seis e quinze, no entardecer. Eu estava assistindo à televisão depois de um dia de trabalho exaustivo. Parei para tomar uma cerveja, fui até a cozinha — o rádio estava ligado — e do lado de fora não se via uma alma viva: total escuridão. Sem nada para fazer e sozinho em casa, ouvi algum barulho no quintal. Não fui averiguar porque presumi que era algum gato ou bicho do tipo. Estava tomado pela tranquilidade e pela sensação de descanso. Comecei a beber ainda mais até que ouvi uma notícia no rádio.
Tinha acabado de desligar a televisão quando ouvi que um suspeito estava sendo caçado pela polícia. Ele havia fugido de um presídio e era retratado como um sujeito altamente perigoso. O rádio emitiu os detalhes do homem: descreveu-o como alguém de estatura mediana, com roupas pretas, capuz e mãos cinzas. Mãos cinzas? Como poderia alguém ter mãos cinzas?
Abri a geladeira atrás de algo para comer e continuei ouvindo o rádio. O jornal dizia que o tal assassino estava nas redondezas. Ignorei até que voltei a ouvir barulho no quintal. Percebi que eram passos. Minha adrenalina subiu instantaneamente: era alguém, uma pessoa.
Olhei pela janela cuidadosamente, afastando devagar as cortinas. Não tinha ninguém. Percebi uma movimentação estranha do outro lado da casa. O rádio ainda estava ligado. O locutor disse alguma coisa sobre “não olhar nos olhos dele” antes de a transmissão cortar e ser substituída por uma música estranha — uma melodia infernal que parecia ser de outro mundo —, até que foi submergida por ruído branco. Era como se alguém estivesse alterando a transmissão.
Desliguei o rádio da tomada, apaguei as luzes, peguei meu celular — estava sem rede. As luzes então começaram a piscar até que se desligaram completamente. Ouvi mexerem na porta de baixo, como se tentassem abrir. Corri para me esconder no guarda-roupa do andar de cima. O que eu poderia fazer? Me esconder no banheiro? Na cozinha? Não consegui pensar em nada concreto, apenas escolhi o guarda-roupa de cima.
Estava na mira do assassino — era o que se passava na minha cabeça. Estava tremendo e minha visão começou a ficar turva. Eu iria morrer. Morrer sem mais.
Fiquei em silêncio. Ouvi passos — passos que ficavam cada vez mais distantes —, até que não ouvi mais nada. Tive receio de sair e encontrar alguma coisa. Não consegui dormir e fiquei a noite inteira no guarda-roupa até que amanheceu e o sinal do telefone voltou.
Liguei para a polícia, mas sequer era necessário: eles já estavam vasculhando a área em busca do suspeito. Saí do guarda-roupa e fui atender à porta. O policial perguntou se em minha casa estava tudo em ordem. Disse que tinha ouvido barulhos, mas ele meio que ignorou e pediu que eu preenchesse um documento. Assinei e perguntei se o assassino havia sido pego. Ele fez que não com a cabeça e disse que estavam na procura desde seis horas da noite passada. Recomendou que eu trancasse a porta e as janelas.
Liguei a televisão e ainda estava passando a notícia do assassino. Comecei a jogar xadrez comigo mesmo e foi quando ouvi a janela bater. Meu coração começou a palpitar rapidamente, mas quando fui ver era apenas o vento forte. Estava uma ventania absurda e o mais estranho era que o sol brilhava como numa tarde de domingo.
A televisão e o rádio informaram para que ninguém saísse sem autorização. Que ordem estranha. Por que diabos não podíamos mais sair? Apenas por causa de um assassino? O que esse homem tinha de especial? Era um exército?
O clima estava estranho e os meus vizinhos não esboçavam nenhum som. Foi quando olhei novamente para fora e não vi ninguém. Recebi no rádio a informação de que o exército estava nas ruas e que poderiam abrir fogo contra quem violasse as ordens de ficar em casa. Aquilo era um absurdo. Nunca havia acontecido isso aqui. Por que estavam tão nervosos por causa de um único assassino?
Fui para o meu quintal e ouvi disparos. Me agachei para ver o que estava acontecendo e vi, por uma brecha, dois homens vestidos de preto, com uniforme militar, coturno e metralhadora, abrindo fogo contra uma mulher desarmada. Atingi o pico da adrenalina e foi quando percebi que eles estavam matando todo mundo que estivesse fora de casa — e isso incluía o quintal.
Quando terminaram, olharam para a minha casa e caminharam em direção a ela. Rapidamente corri de volta abaixado para que não me notassem, tranquei a porta de trás e corri para o quarto. Uma música altíssima começou a tocar na casa ao lado. A música era alta, mas ainda era possível ouvir os disparos.
Ouvi passos próximos da minha casa. Tentei olhar pela janela: eram quatro militares dando ordens enquanto um blindado do exército passava próximo. Um dos militares olhou para a minha janela e deu um sinal para o soldado ao lado. Tranquei a porta do quarto e entrei no guarda-roupa de novo. Joguei o máximo de roupas que consegui em cima de mim.
Ouvi baterem na porta. Mil coisas se passaram pela minha cabeça. Eu seria morto ali mesmo? Estava abafado e quente. Arrombaram a porta. Eles vasculharam o subsolo e toda a sala. Até que ouvi passos: eram eles. Estavam subindo para o andar de cima. Bateram na porta apenas uma vez antes de derrubá-la. Começaram vasculhando a cama, depois os armários e, por fim, o guarda-roupa.
Abriram. Eu estava coberto por lençóis. Um deles chegou a tocar nos lençóis, mas por alguma razão não sentiu meu braço. O que diabos estava acontecendo? Um assassino surge do nada e o exército decide sair matando pessoas aleatórias? O que diabos aconteceu?
Eles perceberam que havia uma porta que levava ao sótão e ao banheiro. Todos seguiram para lá. Eu estava perdido. Iriam me encontrar e me matar. Não tinha escolha. Os três que entraram foram para o banheiro e para o sótão. Aproveitei a deixa e pulei pela janela.
Não tinha ninguém na rua. Tudo vazio. O que estava acontecendo? Uma guerra? Pulei do segundo andar e caí na grama do jardim. Pensei que eles tivessem escutado. Pulei para o quintal do vizinho e tentei me esconder na moita. Me machuquei com os espinhos e insetos. Consegui distância e cheguei a uma rua que levava a um mercado próximo. Não tinha ninguém. As casas estavam fechadas. Meus passos ecoavam na rua e a adrenalina estava a mil.
Um blindado do exército surgiu. Me escondi atrás de um muro de uma casa e observei de longe. Os militares saíram do blindado e abriram fogo contra o mercadinho. Os sons da metralhadora ecoavam dentro dos meus ouvidos. Apenas tampei os ouvidos e fiquei em posição fetal.
Os militares pareciam tensos, nervosos, andavam para um lado e para o outro. Para mim era o fim. Eu iria ser pego. Não tinha escapatória. Vi que a casa onde eu estava escondido tinha uma cobertura por baixo. Rasguei com os dentes e entrei nela. Esperei e esperei. Estava quente ao mesmo tempo que ventava como nunca. Me encolhi e comecei a rezar. Não tinha a mais mínima ideia do que estava passando. Aquilo era um sonho? Minha imaginação?
Foi quando um deles chegou onde eu estava. Caminharam em volta da casa. Consegui ouvir os passos deles entrando na casa. Tentei ir para o centro. Ouvi os passos em cima. Ele caminhou e caminhou até que parou bem em cima de mim. Ouvi uma voz bem baixa dizendo: “Ele está aqui”. Quando ouvi isso, entrei em desespero total. Me arrastei como nunca até o final da casa e, antes que eles viessem, pulei para a outra casa.
Diabos, como estava quente. Vento quente no meu rosto. Ouvi disparos na rua ao lado. Estava sem escapatória. Se eu fosse morrer de qualquer jeito, pelo menos seria rápido. Era isso. Eu iria pular e seria fuzilado por razões que eu não sabia. Que escolha eu tinha? Iriam me ver, iriam me matar, me torturar. Não pensei e apenas fui. Quando caí, não tinha ninguém na rua. Nada. Absolutamente nenhuma alma viva.
Percebi que eles tinham aberto a porta dos fundos e, com isso, corri como nunca para o outro quintal. Dessa vez eu não iria parar para me abrigar. Corri passando de casa em casa e não ouvi mais nada, nem ninguém.
Foi quando vi: um homem vestido de preto no meio da rua. Quando o vi, me ajoelhei. Pedi misericórdia, compaixão. Ele estava lá, no meio da rua. Não espere… não era um homem normal, não era um militar. Era um homem de capuz preto e rosto cinza. Era ele? O homem que haviam anunciado no jornal? Ele aqui? Frente a frente. O que eu deveria fazer? Correr? Implorar pela ajuda dos militares?
Tentei me mover, mas nem tive tempo. Ele me alcançou. Era como se tivesse pulado o espaço entre mim e ele. Em questão de segundos, estava na minha frente. Vi seu rosto: era assimétrico, estranho. Seus olhos escondiam uma intenção sombria, perturbadora. Era como se tivessem colado um rosto em um manequim. Seus dentes eram estranhos. Ele se aproximou e me agarrou. Eu estava em prantos, suando e machucado. Não tinha nem como reagir. Já tinha perdido.
Foi quando ele perguntou:
“Qual o limite entre a consciência e o espírito?”
Depois disso, seu rosto virou uma espiral e perfurou meu rosto.
Eu acordei. Estava em uma cápsula, aberta. Senti como se tivesse nascido. Abri os olhos. Meus ossos estavam doendo, meus lábios bastante ressecados. Não sei por que, mas minha cabeça doía e meus dedos estavam dormentes. Estava frio e parecia um clima de chuva.
Me levantei. Afinal, era um sonho? O que houve ali? Levantei da cápsula e vi que havia mais três ali. O que era aquilo? Não consegui lembrar de nada além desse tal “sonho”.
Quando andei alguns passos e cheguei perto da cápsula, estava empoeirada. Passei a mão sobre ela e havia um cadáver ali, no estado final da decomposição. Ao que vi, parecia que ele estava ali há décadas… ou séculos…
Eu estava sozinho em uma sala cinza-claro, com apenas uma janela que mal deixava ver o que estava acontecendo lá fora. Apenas vi que era dia. Havia apenas um corredor que levava a outra sala e, de longe, vi que havia ali mais cápsulas.
Caminhei pelo corredor e, quando cheguei na sala, me deparei com uma criatura. Era uma máquina, estranha, deformada e com um aspecto extremamente hostil. Ela estava mexendo em uma das cápsulas. Sem querer, acabei fazendo barulho ao pisar em uma plataforma quebrada. A máquina se virou…