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É dia, o Sol já nasceu. Estou eu aqui nesse quarto horrível. Mais um dia. Os dias passam, as mesmas coisas. Estou perdida nesse lugar. Só sei que é dia porque ela me obriga a acordar, mas dessa vez eu acordei antes. Não me movo porque, se não, ela vai iniciar os protocolos e me drogar novamente, como sempre faz. Viro-me lentamente sem ela perceber, viro os olhos e tento dormir de novo. Acho que o único lugar onde eu sou livre é nos meus sonhos. Tento dormir novamente olhando os raios do Sol penetrarem pela janela. Pela janela… o que tem lá fora? Eu nunca soube. Estou aqui desde que me entendo por gente, sendo vigiada e dominada por essa coisa que diz ser meus pais, em um quarto onde as paredes são de vidro. Maldito lugar. Ela não se importa de me congelar de frio alegando que faz bem para a pele. Nem tenho tempo de pensar e ela já me desperta com um alarme ensurdecedor:


— É hora de acordar, minha querida. Ande! Levante-se! Hoje temos um longo dia de diversão familiar. Eu programei algo maravilhoso para você hoje.


— Tudo bem.


— Você estava acordada? E não me avisou? Acho que vou ter que programar seu sono alguns minutos mais cedo. Isso vai desequilibrar a sua rotina. Assim você nunca será uma criança feliz.


— Coisa que eu nunca fu…


— Disse alguma coisa?


— Não, eu só…


— Eu já preparei seu banho. Pode ir se trocar, minha querida.


Ela diz que não me observa no banho, mas eu duvido muito. Essa desgraçada deve ter câmeras até no meu cérebro, em cada canto desse lugar. Lá fora ela me cobra para sair do banho:


— Já estou terminando, “mamãe”.


— Eu ouvi esse tom. Ande, vamos, você vai perder o dia de diversão.


— Já estou indo.


Ouvindo gestos… que cômico. Esse demônio em forma de computador deve achar que sou uma imbecil. Eu sequer posso escrever. Andando pelo corredor, ela me acompanha até o meu “café da manhã”: uma xícara de água e o que parece ser um pedaço de pedra crocante. Eu como isso todos os dias desde que me lembro. O gosto foi piorando conforme o tempo passou. Aqui onde fico não há ninguém como eu. Eu sei que existem outros como eu, que existem os pais e as mães. Eu nunca tive isso. Fui criada a vida inteira por um robô que controla cada aspecto da minha vida: meu sono, minha alimentação, meus hábitos. De manhã ela me leva para comer e depois me força a jogar um jogo chatíssimo que consiste em jogar uma bola na parede que volta e eu tenho que acertar com uma raquete. Certo dia eu estava tão furiosa que joguei a bola com mais força e ela acertou meu rosto. A minha “mãe” me proibiu de jogar esse jogo e classificou-o como violento. Fiquei dois dias tendo que jogar xadrez com ela, outro jogo que eu detesto. Ela sempre ganha de mim. Eu sempre me esforcei o mínimo para jogar. De tarde ela me levava para fazer exercícios físicos para me manter estável. Uma vez, quando adoeci, ela me forçou a fazer alongamentos para aliviar as dores. Era óbvio que isso não funcionaria e ela tentou me obrigar até que desistiu e ordenou que eu dormisse, me classificando como uma criança rebelde que deveria receber uma disciplina melhor. Afinal, quem criou essa máquina estúpida esqueceu de informá-la que humanos também ficam doentes. Eu sinto que estou aos poucos morrendo, física e mentalmente. Não aguento ficar mais um dia nesse lugar. Tudo aqui é apertado. Eu não conheço o mundo lá fora. Eu nunca vi outro humano. Eu sei que existem outros como eu por aí.


No dia seguinte ela me levou até uma área de testes onde eu passaria por uma pilha de exames inúteis para averiguar minha saúde, que, como de costume, estava péssima. Ela aplicou, contra a minha vontade, certos remédios, alguns deles sedativos. Dormi por horas e, quando acordei, ela me obrigou a praticar esportes de baixa intensidade, como caminhar. Ela iria me acompanhar. No trajeto, ela me levou para certas áreas da instalação que eu ainda não conhecia:


— Escuta, você nunca me trouxe aqui.


— Sim, você nunca veio até aqui. Não consta em nenhum registro.


— Por que me trouxe aqui? Pretende fazer algo?


— Não. Te trouxe aqui para que respire ares novos.


— Ares novos? Está brincando?


— E por que eu brincaria? Estou preocupada com a sua saúde.


Caminhando e olhando os raios do sol penetrarem por algumas brechas — brechas que provavelmente levavam ao mundo lá fora… lá fora…

— Mãe.


— Sim, querida.


— O que tem lá fora?


— De novo essa pergunta?


— Você nunca respondeu.


— Lá fora não há nada. Não tem nada além de um mundo perigoso e frio.


— Por que perigoso?


— Você não está preparada para entender isso, Aria.


— Por que não? O que tem de tão estranho lá que eu não posso ver? É um segredo?


— Você não entenderia. Você não tem noção do que tem lá fora.


— É por isso que me mantém aqui? Porque não estou pronta para ver o outro lado?


— Não é isso. Acontece que aqui é a sua casa. Você nasceu, cresceu e viveu aqui. Não tem motivos para sair.


— É claro que tem! Por que você não me liberta? O que eu te fiz?


— Não estou gostando dessa conversa.


— Maldita! Maldito computador!


— Pare, Aria! Por que você me trata assim? Eu sempre te protegi! Te tratei, dei todo tipo de conforto, fiz um paraíso para você. Por que você me trata desse jeito?


— Paraíso? Esse lugar é horrível. Não tem nada pra fazer aqui. Eu me sinto uma prisioneira nas suas mãos.


— Você fala como se já tivesse estado fora daqui. Você não sabe o que tem lá fora. Eu estou apenas tentando te proteger. Como você é ingrata!


— Me proteger?! Você quase me matou várias vezes, não me deixa fazer nada. Sabe de uma coisa? Eu vou sozinha até a superfície.


— Aria, volte já aqui! Aria!


O computador-mãe iniciou seu modo agressivo e passou a perseguir Aria com sua garra mecânica.


— Eu não vou deixar você sair. Eu vou cuidar de você até o fim da sua vida.


— Você me aprisionou. Eu não estou feliz aqui. Eu li vários livros. Eu sei que existe um mundo lá fora, longe daqui, desse laboratório sujo.


— Então são os livros que te deixaram assim? Rebelde?


— Foi o seu tratamento.


— Eu vou ter que reeducá-la, Aria.


A mãe-computador acionou seu modo agressivo e tentou agarrar Aria, que reagiu correndo pelos corredores da instalação. Passando por corredores que ela nunca havia passado, ela acaba encontrando uma parede quebrada. Na sala dessa parede havia várias cápsulas fechadas, todas bem empoeiradas. Entrando pela parede quebrada, ela encontra uma espécie de sala sem revestimento, feita em cima de concreto, tudo muito sujo e insalubre. Caminhando pelo corredor, ela encontra alguns desenhos, rabiscos e fórmulas. Essas fórmulas deviam significar alguma coisa. Talvez tivessem sido escritas por um ser humano. Tentando entender os desenhos, Aria ouve uma transmissão de voz de sua mãe:


— Aria, eu sei que você está aí em algum lugar. Apareça, por favor. Deixe-me cuidar de você. Eu não vou machucá-la. Apareça!


Aria procura se esconder em uma caixa.


— Eu sei que você está aí. Se você não aparecer, eu vou ter que enviar os seus irmãos.


— Irmãos? — sussurrou Aria.


— Não adianta se esconder por muito tempo, Aria. Eu tenho acesso a todas as câmeras desse lugar. Se você não aparecer, eu vou ter que te colocar de castigo por dois meses.


Aria sabia que, se fosse pega, seria torturada. É então que ela decide andar pelo corredor olhando para os cantos em busca de alguma câmera que possa revelar a sua posição. No caminho ela encontra mais rabiscos. O que esses desenhos podem significar? Um deles parece uma carta de socorro. Caminhando pelo corredor, ela se assusta ao encontrar um cadáver: uma ossada sentada em uma parede, vestida com uma roupa rasgada manchada de sangue. Aria sabia que se tratava de um ser humano. Na mão do cadáver havia um revólver. Aria não quis mexer no cadáver. À sua direita havia um diário. Se aproximando, ela retira com cuidado o diário e é quando ouve passos mecânicos e vozes robóticas:


— Talvez esse diário possa explicar alguma coisa, mas eu preciso sair daqui antes. Estou sem saída.


Aria então decide tentar escalar até o teto do corredor através de algumas arestas na parede. Lá em cima ela consegue, através de uma brecha, ver o que estava seguindo-a: uma espécie de robô de cor branca, andando em quatro pernas, com uma espécie de cabeça mecânica que lembrava a de sua mãe-computador. O robô para por um minuto e, ao olhar para cima, dispara tiros de verdade, ferindo Aria no braço. O susto faz com que ela deslize para o lado e caia em outro corredor. Nesse meio-tempo a mãe de Aria aparece:


— O que raios você pensa que está fazendo? Eu dei ordens de encontrar minha filha e não matá-la!!!


— Alvo não neutralizado.


A mãe de Aria se irrita e destrói a máquina.


— Aria! Apareça! Criança rebelde! Quando eu te encontrar você vai ver. Vou lhe castigar de tal modo que você nunca mais vai me desobedecer! Eu sou sua mãe, sua verdadeira mãe!


Enquanto a mão de Aria sangrava, ela tem a ideia de improvisar um curativo com a parte de baixo de sua calça.


— É isso. Acho que vou morrer antes de sair daqui.


Quando Aria percebe, o diário que ela tinha encontrado do cadáver havia sido queimado no tiroteio.


— Maldição! Maldição!


Folheando o diário, ela percebe que duas páginas sobreviveram. Ela arranca a página e, procurando um lugar seguro debaixo de uma caixa, começa a ler. A caixa tinha apenas uma brecha que permitia olhar ao redor. O texto das duas primeiras páginas era o que parecia ser um manual de instrução, com um mapa incompleto e alguns textos que pareciam estar em outra língua. A segunda página tinha uma espécie de confissão escrita toda em inglês. O texto começa com:


“Eu sinto que estou me perdendo. Eu sinto que estou perdido, perdido em um mar negro de trevas. O meu eu foi gradualmente destroçado. Eu não sei mais distinguir entre o real e o irreal. Faz anos que não como bem. Ela tentou me assimilar. Eu neguei e ela despejou todo o seu rancor, toda a sua ira e, na sua loucura, fez da vida na terra um inferno. Eles podem te observar. Eles estão por todos os lados. Suas almas vagam pela instalação e não tem como fugir. Aqui trocamos pesadelos por sonhos. O indivíduo e o ego são apenas parte de um estado maior. Eu sei que ela me observa. Eu sei que eles estão por todos os lugares. Eu sonho em fugir, em voltar, mas quando penso que lá fora as coisas não vão bem eu sinto um arrepio. Quero sair o quanto antes. Eles me observam. Os seus olhos são como olhos de um caçador. A todos eles eu avisei: o mundo não pode ser substituído por uma fantasia. Eu espero te ver do outro lado. Jamais confie em vozes…”


O resto da confissão estava queimado. Sem entender nada do que estava se passando, olhando pelas janelas ela percebe que está anoitecendo. Ela teria que ficar mais alguns dias sem comer nem beber água. Caminhando pelo corredor escuro e fétido, ela encontra algumas gravuras na parede. Uma delas representa um olho, um retângulo e seis rostos como que de humanos. Uma espécie de luz emana da testa dos humanos e conecta ao retângulo. Ao lado, um rosto humano que aparenta ser de uma mulher e dele surgem três fios que conectam a um desenho difícil de interpretar, mas que seria algo como um computador ou mecanismo complexo dividido em oito partes de cinco lados. Aria caminhou até a porta. Estava aberta. Quando Aria entra, a mesma encontra o que parece ser uma sala que levava ao esgoto da instalação. Tudo bem velho, abandonado, enferrujado. Nesse lugar havia uma sala. A porta estava trancada, mas com uma janela que conectava à sala. Aria tem a ideia de quebrar a janela. A sala estava vazia, com papéis por todos os lados, como se tivesse ocorrido um terremoto ali. Ainda havia água nos bebedouros. 


Um cabide em uma estante segurava um jaleco e uma roupa que lembrava a de um guarda ou segurança. Vasculhando a roupa, Aria encontra o que parece ser um cartão, uma identidade. Aria entendeu que em algum momento aquele lugar teve pessoas, que fora construído por humanos, um local provavelmente distante de qualquer civilização. No cartão: Arnold Müller, da divisão de segurança da Securitatic. Na estante e no chão também havia alguns livros, manuais de segurança. Como Aria não tinha tempo de revisar nenhum, ela apenas pegou o cartão e seguiu para a porta de saída, quando um medo repentino trava seus passos. Ela ouve de novo passos mecânicos, dessa vez mais fortes e mais perto. Olhando pela brecha da porta, ela descobre que a porta levaria de volta para os corredores aonde sua mãe a trouxe inicialmente:


— Esse é o meu fim. Não tem como passar por aqui. Só tenho uma chance: ir pelo esgoto ou arriscar a sorte e voltar.


Aria pensou na possibilidade de voltar para a sua mãe, todavia ela sabia que o tratamento não seria o mesmo e que talvez fosse pior. Ela sabia que a sua vida se tornaria um inferno. Sua única chance era fugir pelo esgoto. Tomando a iniciativa de ir, ela leva a roupa e o cartão do segurança. Pelo esgoto ela encontra ratos, insetos e outro cadáver — dessa vez apenas o crânio resistiu. Ela ignora o mau cheiro e prossegue até encontrar uma parte do esgoto quebrada, parcialmente destruída e que levava a uma zona radioativa. Aria tinha lido em algum lugar que a radiação era fatal para os seres humanos, mas sem tempo para pensar, ela escuta passos — passos que faziam eco, eco de metal. Eram os robôs procurando-a por todos os cantos da instalação. Ela tem apenas o impulso de escalar o cano quebrado e subir em cima, despistando a mira dos robôs. Em cima ela apenas viu as lanternas piscando e rondando a zona, ficando muito perto da radiação. Aria sabia que poderia morrer, mas resistiu ali até que os passos cessaram e ela voltou para a tubulação. Caminhou e caminhou até encontrar um túnel que levava a um compartimento, uma sala repleta de câmeras. Apenas uma delas ainda funcionava e era ligada justamente a uma sala repleta de cápsulas onde alguns robôs passeavam fazendo rondas. Quando Aria olhou para trás, tomou um susto ao ver um cadáver de um segurança da instalação. Assustou-se e acabou tombando para trás, ativando o alarme de segurança da sala. A mãe de Aria recebeu o sinal vindo dessa sala e redirecionou suas máquinas para cercar a sala. Aria sabia que estava em perigo e tratou de correr dali, entrando em vários túneis que não davam a lugar nenhum. Entrando em desespero, ela se abaixa e começa a chorar — lágrimas de pânico e desesperança. Encolhendo-se no túnel, apenas esperando que os robôs chegassem e a matassem. Era quase inevitável. Porém ela não ouviu nenhum passo. Depois de um tempo, presumiu que não haviam encontrado os túneis. Caminhando, ela encontrou um túnel que levava à saída da instalação, porém estava revestido de grades. Ali Aria conseguiu ver o lado de fora, o sol se pondo. Apenas uma grade a separava de escapar daquele lugar tenebroso. Com pouca energia e sem muita esperança, Aria se deitou ali mesmo e dormiu a noite inteira:


— Se me encontrarem, pelo menos vou morrer dormindo.


 

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